sábado, 3 de maio de 2008

A escola de Nina Rodrigues

O que tem em comum as declarações do professor Antonio Natalino Dantas, da Escola de Medicina da UFBA, com o pensamento do seu mestre Nina Rodrigues ?

Já que o óbvio deve ser dito, digo que tudo está relacionado, Nina ontem é Natalino hoje. O professor-coordenador da centenária Escola de Medicina talvez tenha falado por ele e por outros que como ele, pensam mas não dizem. Não sei o que é pior. Claro fica o racismo que ainda orienta as crenças, valores e atitudes dos dirigentes da elite brasileira. O Brasil está doente porque não é inteiro, a nossa sociedade não gosta do que vê quando se olha no espelho, estamos fragmentados, partidos e o professor declarou como pensa parte da elite nacional. Expôs o pús fétido preso nas mentalidades dos descendentes diretos dos senhores de escravos de ontem.

De pensar que são essas as mentalidades e valores que orientam a pesquisa e o ensino na nossa eurocêntrica academia. Talvez por isso, as mulheres negras tenham menor tempo de atenção nos consultórios públicos em exames pré-natal, mesmo comparadas com mulheres pobres não-negras.

Não combaterei as declarações do professor ( título não merecido por ele), com raiva ou ira. Mas quero afirmar o respeito que nós devemos aos mestres de capoeira do Brasil e do mundo. Afinal a capoeira é praticada em 150 países, e teve na Bahia dois grandes ícones - Pastinha e Bimba, grande educadores do nosso povo, cuja ferramenta tem uma "corda só". Com "QI" pequeno seria difícil resistir e construir um patrimônio cultural tão valorizado e em ares tão inóspitos. Grandes foram as lutas dos nossos velhos mestres para que o estado Brasileiro reconhecesse a capoeira como patrimônio nacional e elemento importante no nosso processo civilizatório. Cabe-nos fazer justiça ao presidente Getúlio Vargas pela sua atitude com relação à capoeira.

A capoeira, professor Natalino, é a dança -luta construída pelo filhos da África, a mãe e parteira do mundo, a capoeira é vida integral, é corpo são e mente sã. A capoeira trabalha a saúde integral dos seus praticantes, a capoeira prepara para a vida, condiciona a mente e os músculos, os reflexos e a disciplina dos desportistas. Atualmente muitas mulheres e meninas praticam a capoeira junto com meninos e homens. Quer seja em academias da classe média, quer nos bairros simples da cidade. Neste caso particular, vale lembrar que a capoeira é também inclusão social, pois é através dos seus mestres que muitos jovens saem das ruas, das situações de risco social que a sua elite os coloca. Em alguns bairros a capoeira é o único meio de socialização desses jovens vítimas da exclusão, é o lugar aonde as mães deixam os seus filhos sob a proteção do mestre - misto de pai e líder da comunidade, quase sempre o único conselheiro do lugar, cujo instrumento maior é o birimbau de uma "corda só" como o senhor quis reduzir, ao comparar com o violino.

Também gosto de ouvir violino e piano, mas a compreensão do Brasil e de nosso povo, exige respeito aos nossos bens culturais, materiais e imateriais, mas aí é papo de sociólogo e antropólogo como eu, o Senhor não precisa saber tudo, mas aprender a ser. Digo isto porque sei dos seus títulos acadêmicos, mas de nada servirá o saber fazer, se não soubermos ser.

Aliás, para aprender a ser, é aconselhável saber ouvir. Então professor, sugiro que o senhor ouça a Ave Maria de Schubert, tocada num berimbau. Nada fica a dever à Orquestra Sinfônica de Moscou, ou que tal o Hino Nacional executado por uma orquestra de berimbaus, tendo ao fundo os tambores do Olodum e a Orquestra Sinfônica da Bahia. Mas tem que ter ouvidos e mentes abertos, pois a complexidade do berimbau está exatamente em ter uma corda só. É complexo tocar com uma corda só, diferentemente de tocar com sete ou doze cordas. Repare que falei que é diferente, não cometeria o erro em afirmar que o berimbau é melhor. Mas para tocá-lo tem que ser bom. Isto é: ter menos clareza e mais nitidez.

Ailton Ferreira, sociólogo, educador, membro do Conselho Estadual da Comunidade Negra-CDCN

8 comentários:

Anônimo disse...

Como disse Jacques Wagner: "Ele teve um surto de imbecidade", e agora graças a Deus, renunciou.

A matéria foi muito bem escrita.

Abraços

Tânia Amado

Anônimo disse...

Retificando: O surto foi de IMBECILIDADE.

Tânia Amado

Jorge Nascimento disse...

Ta ai companheiro este é mais um canal de comunicação, e espero ser sempre esta trincheira de resistência a todo tipo de racismo ou discriminação, muito bom o seu comentário nesta matéria.

Felicidades Miiiil!

Anônimo disse...

Caro colega,

Sábio homem é aquele que sabe que nada sabe. Aprender sempre, mas sobre tudo saber ouvir bem, deve ser a meta de um grande educador. Por isso, quando ouço pessoas falando do que não sabem ou do não conhecem, lamento muito, pois o mundo julga tudo severamente e, inevitavelmente elas pagarão caro po isso.

Abraços ao companheiro de jornada.

Dione Araújo - Navarro de Britto
dioneasantos@yahoo.com.br

Unknown disse...

Parabéns Ailton, muito boa esta matéria, são pessoas como você que o nosso país precisa.

Abraços

Nilda Andrade

nildrade@msn.com

Anônimo disse...

PARABENS COMPANHEIRO, O COMENTÁRIO QUE MAIS ME ALENTOU, DEPOIS DAQUELE ARRÔTO FÉTIDO DO PROFESSOR NATALINO, SENTIDO E OUVIDO PELO PAÍS E TALVEZ PELO MUNDO.

Anônimo disse...

Parabéns Sr. Ailton Ferreira. Fantástico seu parecer a respeito da estupidez do professor Natalino.
Seu blog muito vai ajudar na propagação de ideais do povo negro.
Um abraço negro
Silvana Sampaio Gomes

tania Amado disse...

Interessante, como lemos a mesma informação muitas vezes, e a cada vez fazemos novas "leituras". Na época claro que li o seu comentário, sobre a infeliz colocação do professor da faculdade de Medicina da Ufba, entretanto, hoje relendo,pude mais uma vez certificar-me da importância , do reconhecimento e do quanto temos o direito e o dever de defender o nosso ponto de vista acerca de questões, onde ficam evidenciadas a falta de respeito ao nosso povo e as nossas convicções. Repito:Ainda bem que ele renunciou. Parabens Ailton.