Quando vejo e ouço falar de Manuel Bandeira, lembro do meu primeiro ano de ginásio, com 11 anos de idade na escola pública - Colegio Estadual Duque de Caxias, no bairro da Liberdade. Ali, bem menino ainda, lia com avidez os romances que depois se tornaram obrigatórios para os vestibulares da UFBA - A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo; Fio de Prumo de Manuel Bandeira; Meninos de Engenho, de José Lins do Rêgo; Memórias de um Sargento de Milicias, Senhora, de José de Alencar; O Cortiço, de Aluízio Azevedo; Olhai os Lírios dos Campos.
Embrutecemos, emburrecemos e sorrimos disso. Ontem na TV Glogo teve concurso da melhor periguete. A TV ensinando as filhas dos pobres a serem coisas ruins. As filhas da classe média e alta tem outras alternativas, não passam fome, tem referências, tem lazer e computador e os pais acompanham. As pobres, ficam nas portas dos botecos ouvindo pagadões e arrochas. Não o apoio básico, o pai sumiu e a mãe faz de tudo para sobreviver e criá-las. A rua é a extensão do lar, e o barzinho está alí ao lado para fazer descer redondo a cerveja e tudo o que vier, porque o período é curto, muito curto e o prazer, ainda que efêmero, deve ser imediato, pois logo vem a bala perdida - o que chamo de: último tiro. Pobreza, desconhecimento, erotização rápida e barata. Depois estão as nossas meninas pobres a procurarem as maternidades públicas para parirem ou concluírem o aborto. Aliás, muitas das mulheres negras e pobres chegam pela primeira vez ao médico para parirem ou abortarem. E o som continua: "desce neguinha!", " Mexe ordinária!", " rala no chão", "toma cachorra !" . E quem acaba tomando, são as nossas meninas precocemente atingidas.
Lamentável que apresentadoras e apresentadores de certo prestígio, façam esse tipo de apelo midiático. Nas ruas populares, a menina que não tem tatuagem e outros aderêços já são as "caretas" , maltratadas e quase obrigadas a preencherem os requisitos da "periguete", para serem aceitas e aprovadas. Lamentável a associação dessa imagem com a situção de risco e vulnerabilidade social. A mesma tatuagem é usada pelos programas policiais do meio-dia para estigmatizar e colocar pessoas sob suspeita de crime. É a verdadeira roda-do-inferno. O domingo último foi um DOMINGO ainda MENOR para a Rede Globo.
Volto ao Último Tiro - aquele da morte matada que sai publicada nos obituários, que entra nas estatísticas públicas, pois antes desse último tiro, são vários que a nossa juventude está recebendo: a desatenção, a falta de afeto, de carinho, de alguém que as ouça, a falta de afeto e das políticas públicas mais gerais. A nossa juventude morre por falta de apreciação positiva que a eleve e oriente. Está faltando mãos para ajudarem os nossos jovens na travessia, a cumprirem os ritos de passagens. Ficaram à própria sorte, e nós, de hipócritas que somos, somente lamentamos o último tiro. E eu com isso!
Nenhum comentário:
Postar um comentário