O falecimento de Mãe Hilda trouxe muita dor aos seus e uma perda grande para os ensinamentos da cultura afro-brasileira. Os atos preparatórios ao funeral de Mãe Hilda no bairro da Liberdade foi uma verdadeira viagem antropológica. Os ritos foram cumpridos e observados antes e depois do sepultamento. O velório, ao contrário do que ocorre normalmente não foi realizado no cemitério e sim no espaço dentro da comunidade, oportunizando dessa forma a visitação dos fiéis, amigos e familiares em sua última homenagem, mantendo a roda da convivência, a roda da vida que abre e fecha para os ciclos da natureza.
Durante toda a noite em profundo silêncio, todos permaneceram juntos, mantendo uma tradição africana de “morrer com os seus”. Na manhã de domingo, ao som dos cânticos africanos, o corpo da matriarca elevado por seus filhos seguiu pela ladeira do Curuzu e tomou as ruas do bairro, transformando o clima de “mais um dia de domingo” em um dia importante de reverência religiosa. O silêncio somente foi rompido pelos cânticos de louvor cujo coro ia aumentando à medida que novas pessoas também vestidas de branco, incorporavam o cortejo que seguiu até a Rua Lima e Silva, repetindo parte do trajeto feito pelo bloco Ilê Aiyê nos sábados de carnaval da Bahia. A saída do Ylê é o “charme da liberdade” numa comemoração festiva e emocionante, o cortejo fúnebre de Mãe Hilda, trouxe resgate histórico, tristeza para os que ficaram, lacuna no ensinamento da cultura afro-brasileira, mas foi também uma celebração de muita emoção e respeito.
O hábito de carregar a urna funerária e caminhar pelas ruas é quase que desconhecido pelas novas gerações, tanto pelos aspectos da modernidade como pela burocracia que envolve o sepultamento. Atualmente os velórios são feitos no cemitério. Num passado recente a comunidade participava de toda a cerimônia, apoiando e consolando os parentes, repartindo o pão, fazendo o chá, trazendo a água de flor. Atualmente as pessoas chegam minutos antes do sepultamento, sem uma atenção especial ao enterro. Sem a solenidade merecida, apenas marcam o ponto rapidamente.
O falecimento de Mãe Hilda é uma perda irreparável, mas até em sua cerimônia fúnebre e solene houve ensinamentos para os mais jovens de forma a resgatar historicamente os costumes antigos. Diferente das cerimônias fúnebres atuais, o corpo de Mãe Hilda parou na porta do cemitério, aguardando a chegada das pessoas suas lideradas. A partir daí foi dada continuidade à procissão que foi recebida por seus familiares, prefeito, autoridades, parlamentares, a imprensa e o mundo artístico.
Todo o sábado de carnaval o Curuzu atrai milhares de pessoas do mundo inteiro para ver o Ilê passar, no domingo, 20 de setembro de 2009, o Curuzu atraiu o mundo inteiro para ver a Mãe Hilda “sair da terra e passar para o Òrun (céu)”. Agora a Mãe Preta da Liberdade desfila majestosa entre os santos e santas, reconhecida nobremente pelo que fez de bom para a sua gente. Talvez não esteja bem sentada ao lado direito, mas se movimentando para fazer mais um pouco pela nossa juventude que morre cada vez mais cedo tragada pela violência urbana.
Ailton Ferreira, secretário municipal da Reparação
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