segunda-feira, 5 de março de 2012

Pierrôs do afeto


No meio da alegria e contradições que tomaram a cidade nos últimos dias de carnaval, vi coisas de entristecer e outras que alegraram o meu espirito. Vi homens agredindo mulheres. Vi, na Ladeira de São Bento, derramamento de dejetos dos carros de apoio, que têm ali as suas caixas de esgoto liberadas das fezes e urinas sobre os foliões escolhidos naquele trecho da festa. 

Mas quero falar da ternura que inspira o meu texto, pois das coisas ruins estamos tratando através de um amplo leque de parcerias da rede de proteção social.  O que me inspirou nestas Cinzas são as atitudes afetivas de dois lordes do gueto. Um resgata a fantasia da infância, ao conduzir a sua filha menina, nos palcos da festa, vestida de menina, o que pode parecer óbvio, mas pouco vemos meninas vestidas de menina no carnaval. Magary Lord carrega a sua filha pelo mundo e eu o indico como referência simbólica aos pais homens que já não carregam mais as suas filhas. Aqueles pais que não dignificam a nobreza do lorde título. Magary Lord mostra que pode ser ludicamente possível projetar a menina sem erotizar a infância.

O outro lorde talvez nem tenha ciência da oportunidade do Tantinho de canção que esceveu em "coma de amor" para o "tempo passar", e que deve servir para sensibilizar os homens que violentam mulheres na via pública, transformando o circuito da alegria em passarela do terror, deixando  tensão e medo.  Carlinhos Brown nos convida ao seu coma de amor para que aprendamos a ser homens de verdade nas avenidas da vida, e não apenas respeitar as mulheres acompanhadas de outros homens, mas a elas por elas. 

O mundo espera de nós uma nova consciência, de seres talvez tão sensíveis quanto os nossos celulares. E para não sair do ritmo,  sugiro o lorde Magary para ser o nosso embaixador da Infância e Carlinhos  Brown, o  símbolo da campanha contra a violência que fere as mulheres. Magary e Brown apresentam soluções que podem ensinar homens a tomar jeito, a respeitar as meninas, as mulheres e a diversidade. Sejamos como eles, os pierrôs do afeto.

Ailton Ferreira

Artigo publicado no Jornal A Tarde do dia 05 de março de 2012.

Nenhum comentário: