Será que a maneira de se livrar de um vício é adotar outro? Será que, afinal de contas, há que se ser viciado em algo? Estas foram as primeiras perguntas que me ocorreram diante da nova campanha antidrogas recém-lançada pelo governo do Estado. Os bordões emitidos por caras e bocas de figuras midiáticas locais, “viciado em pagode”, “viciado em alegria”, “dependente de carnaval”, “dependente de vitórias”, ou pegando mais leve, “usuária de dendê”, “usuário de livros”, parecem sugerir respostas afirmativas.
A concepção que permeia tais bordões é a mesma que alimenta o perverso circuito de consumo capitalista: o excesso! Há que se consumir, praticar ou desejar tudo em excesso: alimentos, substâncias, roupas, eletrodomésticos, cuidados com o corpo, lazer, ideais, etc., em busca da fruição, do prazer máximo, que, para os inadvertidos, pode resultar justo no seu revés, o desprazer, o sofrimento.
E, se há excesso, certamente está-se bem próximo do que se denomina vício, dependência ou compulsão, como refere a psiquiatria ou a psicologia. O fato é que se trata de um mal-estar que tem assolado a população e que se constitui a partir de uma determinada relação que um indivíduo passa a estabelecer com um objeto (aqui abarcando os materiais e imateriais), relação que o faz manter-se em extrema dependência, em que não se medem riscos ou consequências para adquiri-lo, alcança-lo. Resulta daí, quando não consequências mais graves à integridade física e psíquica do indivíduo, a instauração de um jogo de prazer desprazer, que termina pendendo para o segundo termo, e de uma aguda frustação diante da impossibilidade de satisfação plena.
Essa é uma problemática presente em toda dependência e seu tratamento deve passar necessariamente por uma escuta clínica do indivíduo – fazê-lo interrogar-se e elaborar sobre o que está em questão na aderência a certo objeto – e por um auxílio medicamentoso, quando for o caso. Mas isso pode surtir resultados tão-somente se o indivíduo desejar buscar sair do mal-estar e do sofrimento. Há que se admitir que nem sempre alguém queira o seu próprio bem!
Voltando à campanha, a indicação é: não seja viciado em drogas, mas viciado em outros objetos, alguns dos quais podendo se apresentar, sob um rápido olhar, como inócuos e como se pudessem funcionar simplesmente como uma espécie de antídoto mágico. E mais, os objetos sugeridos estão colados a imagens de personagens que representam ideais cobiçados – riqueza, poder, glamour, etc. – justamente porque são difundidos pela ideologia que submete tantos ao controle do mercado.
No caso de “viciado em alegria” e “dependente de vitórias”, por exemplo, será que não se está contribuindo para a tendência, tão em voga, de incitar, especialmente os jovens, a ignorarem o que pode falhar o que há de perda tristeza na vida? Não saber lidar com isso, que é da ordem do inevitável, não poderá levar a insatisfações e frustações que empurrariam alguns para formas ilusoriamente compensatórias, tão típicas das dependências? Ressalva deve ser feita ao segmento da campanha “usuário de livros”, que vai de encontro à cultura massificadora e alienante, não significando, entretanto, que qualquer leitura propicie benefícios.
Pela complexidade gravidade da problemática das drogas, em particular, está mais que na hora de os responsáveis pela saúde e segurança sociais serem mais cuidadosos e eficazes no tratamento do tema e daqueles que necessitam e querem ajuda. Tal apelo encontra reforço ao lembrarmos que a campanha anterior foi desastrosa na sua mensagem: “Crack: cadeia ou caixão!”. Investir muito mais numa ampla e aparelhada rede ambulatorial para o tratamento das toxicomanias certamente trará melhores resultados.
Jornal A Tarde – 02 de Fevereiro de 2012
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